"Você é egoísta": Como um pote de creme me ensinou que dizer 'sim' querendo dizer 'não' adoece as relações
- Ana Paula Oliveira
- 26 de jan.
- 3 min de leitura
Minha tia pediu, eu calei a minha vontade, mas meu corpo gritou. O res
ultado? Fui julgada. Entenda por que a falta de congruência é a maior sabotadora da sua comunicação hoje.
Hoje, uma memória antiga me visitou. Eu tinha cerca de 10 ou 11 anos.
Lembro que minha tia me pediu um creme emprestado. Eu, uma criança tentando ser "boazinha" e educada, disse que sim. Mas
quando ela me devolveu o pote, percebi que ela tinha usado uma quantidade enorme. Na minha cabeça de criança, ela tinha "acabado" com o meu creme.
O que eu fiz? Eu disse alguma coisa? Não. Eu expressei meu incômodo verbalmente? Não. Eu fiquei quietinha.
Mas o corpo fala. A Gestalt-Terapia nos ensina que somos um organismo inteiro e, quando a boca cala o que o coração sente, a energia vaza por outro lugar. Minha cara deve ter me entregado na hora. Minha energia mudou. Minha tia percebeu aquela contrariedade silenciosa, se ofendeu e lançou a sentença que ecoaria por anos:
"Nossa, como você é egoísta!"
Ali, naquele microcosmo de uma interação familiar, eu aprendi duas lições perigosas que levei para a vida adulta (e que talvez você também tenha levado):
Que impor limites ou proteger o que é meu é "ser ruim/egoísta".
Que eu deveria engolir meus sentimentos para ser aceita.
O Preço da Incongruência
O nome técnico para o que aconteceu comigo é Incongruência. É quando o que você fala (o "pode pegar") não bate com o que você sente (o "não gaste meu creme").
Isso gera um Ruído de Comunicação terrível. A outra pessoa (seja sua tia, seu marido ou seu chefe) recebe uma mensagem dupla. Ela ouve um "sim", mas sente um "não". Isso deixa o outro confuso, defensivo ou irritado.
Minha tia não reagiu ao creme; ela reagiu à minha energia passivo-agressiva. Se eu tivesse dito: "Tia, pode usar, mas usa só um pouquinho porque é o meu favorito?", talvez o desfecho fosse outro. Mas eu não tinha ferramentas emocionais para isso. Eu só tinha o medo de desagradar.
A Síndrome da "Pessoa Boazinha" na Vida Adulta
Quantas vezes, hoje, você repete a cena do creme?
Você empresta dinheiro que não tem medo de ser chamado de "mão de vaca".
Você aceita ir a um jantar quando está exausta, com medo de ser "anti-social".
Você diz "tudo bem" quando o parceiro te magoa, com medo de ser "chata".
E então, o que acontece? Você acumula ressentimento. Você começa a tratar o outro mal, a dar respostas atravessadas, a fechar a cara. O outro, sem entender nada (porque você disse "sim"!), te chama de louca, difícil ou... egoísta.
Ressignificando o Egoísmo
Precisamos urgentemente diferenciar Egoísmo de Auto-respeito.
Egoísmo é pensar apenas em si e danificar o outro propositalmente.
Auto-respeito é considerar o outro, mas não se anular no processo.
Quando você diz um "não" claro e amoroso, você está sendo generosa. Você está dando ao outro a chance de lidar com a sua verdade, em vez de lidar com a sua cara feia ou seu silêncio punitivo.
O Convite
Aquela menina de 10 anos não sabia se defender. Ela precisava pertencer. Mas a mulher adulta que você é hoje pode fazer escolhas diferentes.
Comunicar limites não é grosseria. É a única forma de construir relações sustentáveis. Se você vive engolindo sapos (ou cremes) para manter a paz, lembre-se: a paz que custa a sua autenticidade é cara demais.
Da próxima vez que sentir o "não" subindo pela garganta, não o transforme em um "sim" falso. Respeite o seu creme. Respeite a sua vontade. E deixe que os outros lidem com os sentimentos deles.



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