O "Cardápio Humano" e o Medo do Real: Por que estamos viciados em procurar, mas aterrorizados em encontrar?
- Ana Paula Oliveira
- 19 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
No pós-pandemia, observo um fenômeno curioso: a busca nos aplicativos de namoro aumentou, mas a disponibilidade emocional despencou. Entenda a psicologia por trás da "paralisia da escolha".
Você já se pegou passando horas no aplicativo de namoro, deslizando para a direita e para a esquerda, dando "matches", conversando um pouco e... quando chega a hora de marcar o encontro, bate aquela preguiça ou surge uma desculpa?
Se sim, você não está sozinho(a).
Como psicóloga, tenho notado uma mudança drástica no comportamento dos solteiros (e até de casais que buscam abrir a relação) no pós-pandemia. Existe uma fome de conexão, mas um pavor da vulnerabilidade.
1. O Efeito "Catálogo de Netflix"
Assim como ficamos 30 minutos escolhendo um filme e acabamos não assistindo a nada, estamos fazendo o mesmo com pessoas. A tecnologia criou a ilusão da opção infinita.
O pensamento inconsciente é: "Por que vou me esforçar para lidar com os defeitos dessa pessoa real aqui, se na próxima deslizada pode aparecer alguém 'perfeito'?"
Isso gera relações descartáveis e uma eterna insatisfação. O "quase algo" virou o padrão.
2. A Sequela do Isolamento: O Medo do Imprevisível
Durante a pandemia, o "outro" virou uma ameaça (vírus). Depois, virou uma imagem na tela (seguro).
Na Gestalt-Terapia, dizemos que o contato real exige quebrar a casca. Exige cheiro, toque, lidar com o silêncio constrangedor, com o jeito que a pessoa mastiga. O ambiente digital é controlado e editado. O ambiente real é caótico.
Estamos viciados na dopamina do match (a promessa), mas com medo da oxitocina do encontro (que exige vínculo e risco).
3. Queremos a Fantasia, não a Realidade
Muitas pessoas nos apps não querem um relacionamento; elas querem validar o próprio ego. Querem saber que são desejáveis, sem ter o trabalho de serem parceiros. É um movimento narcísico, não relacional.
Como furar essa bolha?
Se você quer sair desse ciclo de "matches vazios", o caminho é a reumanização.
1. Limite o tempo de tela: Trate o app como um meio, não um fim. O objetivo é sair dele o mais rápido possível para o café.
2. Aceite a imperfeição: O amor real não é polido como uma foto de perfil. Ele tem texturas.
3. Use facilitadores: Se o encontro "cara a cara" assusta, tire o foco de si mesmo. Jogos de perguntas e dinâmicas (como propomos na Oficina de Elos) ajudam a pular a parte superficial e checar se existe conexão de valores rapidamente, sem a pressão de uma entrevista de emprego.
O amor exige coragem para sair do controle e entrar no contato. Você está procurando um parceiro ou apenas um espelho?




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