
Eu sinto que você..." não é um sentimento: A armadilha linguística que transforma conversas em batalhas
- Ana Paula Oliveira
- 12 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
Temos um dicionário inteiro para julgar o comportamento do outro, mas nos falta vocabulário para descrever nossa própria dor. Entenda a confusão entre "pensar" e "sentir" e como isso sabota seu relacionamento.
Quantas vezes você já iniciou uma frase com "Eu sinto que..." e completou com uma acusação?
"Eu sinto que você não se importa."
"Eu sinto que estou sendo deixada de lado."
"Eu sinto que você é egoísta."
Gramaticalmente, parece que estamos falando de emoções. Psicologicamente, estamos fazendo julgamentos.
Existe um fenômeno curioso na comunicação humana: nosso repertório de palavras para regular, classificar e julgar o outro é vasto. Mas o nosso vocabulário para descrever, com clareza, os nossos próprios estados emocionais é limitadíssimo.
A Confusão: Pensamento x Sentimento
Na Terapia (e muito estudado na Comunicação Não-Violenta), vemos que frequentemente confundimos o que pensamos sobre o que o outro fez com o que realmente sentimos no corpo.
• Abandonado, traído, ignorado, desvalorizado.
Isso não são emoções puras. São palavras que descrevem o que achamos que o outro fez conosco. Elas carregam culpa. Quando você diz "me sinto ignorado", o outro ouve "você está me ignorando" e imediatamente se arma para se defender.
• Triste, assustado, solitário, inseguro, ansioso.
Isso são emoções. Elas falam sobre você, não sobre o outro. Quando você diz "me sinto solitário quando ficamos em silêncio", é um convite à empatia, não um ataque.
Por que fazemos isso?
Fomos educados para olhar para fora. Aprendemos desde cedo a dizer "isso é certo, isso é errado", "ele é bom, ele é mau". Não fomos treinados a olhar para dentro e nomear a nuance entre estar frustrado e estar decepcionado.
O custo dessa "analfabetismo emocional" é alto. Passamos a vida tentando corrigir o comportamento do parceiro (regulando o outro) em vez de expressar nossa necessidade (regulando a nós mesmos).
Como sair dessa armadilha?
1. O Teste do "Eu acho que":
Se você pode substituir "Eu sinto que..." por "Eu acho que..." e a frase ainda fizer sentido, então você está falando um pensamento, não um sentimento.
• "Eu sinto que você é grosseiro" -> "Eu acho que você é grosseiro". (É pensamento/julgamento).
• "Eu sinto tristeza" -> "Eu acho tristeza". (Não faz sentido. É sentimento real).
2. Amplie seu Vocabulário:
Comece a investigar o que está embaixo do julgamento. Se você se sente "desrespeitado" (julgamento), o que seu corpo sente? Raiva? Medo? Vergonha?
3. Use Ferramentas:
Às vezes, na hora da raiva, as palavras somem. Recursos visuais, como o jogo Oficina de Elos, ajudam porque trazem as palavras prontas. Ler uma carta que diz "Sinto falta de conexão" é mais fácil do que formular isso no calor do momento.
Mudar a linguagem muda a relação. Quando paramos de usar palavras para rotular o outro e passamos a usá-las para revelar a nós mesmos, a guerra acaba e o encontro acontece.



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