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Eu sinto que você..." não é um sentimento: A armadilha linguística que transforma conversas em batalhas

Temos um dicionário inteiro para julgar o comportamento do outro, mas nos falta vocabulário para descrever nossa própria dor. Entenda a confusão entre "pensar" e "sentir" e como isso sabota seu relacionamento.


Quantas vezes você já iniciou uma frase com "Eu sinto que..." e completou com uma acusação?

"Eu sinto que você não se importa."

"Eu sinto que estou sendo deixada de lado."

"Eu sinto que você é egoísta."


Gramaticalmente, parece que estamos falando de emoções. Psicologicamente, estamos fazendo julgamentos.

Existe um fenômeno curioso na comunicação humana: nosso repertório de palavras para regular, classificar e julgar o outro é vasto. Mas o nosso vocabulário para descrever, com clareza, os nossos próprios estados emocionais é limitadíssimo.


A Confusão: Pensamento x Sentimento


Na Terapia (e muito estudado na Comunicação Não-Violenta), vemos que frequentemente confundimos o que pensamos sobre o que o outro fez com o que realmente sentimos no corpo.

• Abandonado, traído, ignorado, desvalorizado.

Isso não são emoções puras. São palavras que descrevem o que achamos que o outro fez conosco. Elas carregam culpa. Quando você diz "me sinto ignorado", o outro ouve "você está me ignorando" e imediatamente se arma para se defender.

• Triste, assustado, solitário, inseguro, ansioso.

Isso são emoções. Elas falam sobre você, não sobre o outro. Quando você diz "me sinto solitário quando ficamos em silêncio", é um convite à empatia, não um ataque.

Por que fazemos isso?

Fomos educados para olhar para fora. Aprendemos desde cedo a dizer "isso é certo, isso é errado", "ele é bom, ele é mau". Não fomos treinados a olhar para dentro e nomear a nuance entre estar frustrado e estar decepcionado.

O custo dessa "analfabetismo emocional" é alto. Passamos a vida tentando corrigir o comportamento do parceiro (regulando o outro) em vez de expressar nossa necessidade (regulando a nós mesmos).


Como sair dessa armadilha?

1. O Teste do "Eu acho que":

Se você pode substituir "Eu sinto que..." por "Eu acho que..." e a frase ainda fizer sentido, então você está falando um pensamento, não um sentimento.

• "Eu sinto que você é grosseiro" -> "Eu acho que você é grosseiro". (É pensamento/julgamento).

• "Eu sinto tristeza" -> "Eu acho tristeza". (Não faz sentido. É sentimento real).


2. Amplie seu Vocabulário:

Comece a investigar o que está embaixo do julgamento. Se você se sente "desrespeitado" (julgamento), o que seu corpo sente? Raiva? Medo? Vergonha?


3. Use Ferramentas:

Às vezes, na hora da raiva, as palavras somem. Recursos visuais, como o jogo Oficina de Elos, ajudam porque trazem as palavras prontas. Ler uma carta que diz "Sinto falta de conexão" é mais fácil do que formular isso no calor do momento.

Mudar a linguagem muda a relação. Quando paramos de usar palavras para rotular o outro e passamos a usá-las para revelar a nós mesmos, a guerra acaba e o encontro acontece.

 
 
 

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