Mesa para Três: Por que a sua Criança Ferida está sabotando o seu Casamento
- Ana Paula Oliveira
- 4 de mai.
- 2 min de leitura
Por: Ana Paula de Oliveira
Quando duas pessoas decidem compartilhar a vida, acreditam que estão formando um par. No entanto, ao observar os relacionamentos mais de perto, percebemos que, muitas vezes, não é um encontro entre dois adultos. É uma "mesa para três": o homem, a mulher e as respectivas crianças feridas que ambos trazem da infância.
A Regressão na Relação
No consultório, vejo constantemente discussões que parecem ser sobre dinheiro, tarefas domésticas ou a escolha do restaurante, mas que, quando analisadas em sua essência, são apenas reações a dores primárias não resolvidas.
Quando nos sentimos ameaçados, ignorados ou controlados, é comum regredirmos psicologicamente. A pessoa que está à sua frente deixa de ser o seu parceiro e passa a representar, na sua tela mental, a figura materna ou paterna que não atendeu às suas expectativas no passado. O tom de voz vira uma acusação; um olhar neutro vira rejeição.
O Efeito da Criança Ferida
A criança interior busca desesperadamente ser vista e validada. Ela se manifesta no relacionamento de três formas principais:
1. Através da Birra Emocional: O silêncio punitivo, o sarcasmo e as explosões desproporcionais são defesas arcaicas de quem não sabe nomear a própria vulnerabilidade.
2. Através do Pensamento Mágico: A exigência inconsciente de que o parceiro adivinhe suas necessidades, exatamente como uma mãe deveria fazer com o bebê.
3. Através da Projeção: O indivíduo culpa o outro por lhe fazer sentir uma dor que, na verdade, já existia muito antes do casamento.
O Convite ao Autoapoio
Na visão da Gestalt-terapia, o amadurecimento exige a passagem do apoio ambiental (depender que o outro crie um ambiente seguro para eu me acalmar) para o autoapoio (a capacidade de autorregulação emocional).
Para que a relação seja um ambiente adulto, o indivíduo precisa assumir a responsabilidade pela sua própria dor. Em vez de exigir que o parceiro aja como um pai ou uma mãe substitutos, o adulto deve olhar para a própria ferida e dizer: "Isso pertence ao meu passado, não ao meu casamento aqui e agora".
Como Trazer o Adulto de Volta à Mesa?
O processo de individuação e a maturidade afetiva começam no instante em que separamos o que é fato do que é projeção:
• Responsabilidade Afetiva: Reconhecer que o outro aciona um gatilho, mas não é o criador da sua ferida.
• Comunicação Direta: Substituir a cobrança pela verbalização clara e madura da necessidade.
• Ferramentas de Intervenção: Utilizar recursos terapêuticos e reflexivos (como o Jogo Elos) para expor os mecanismos de proteção que nos fazem agir como crianças.
Conclusão
Amar não é apenas cuidar da pessoa que está ao seu lado; é também cuidar da criança que nos habita, para que possamos nos relacionar a partir da inteireza, e não da carência. Quando tiramos o passado da mesa, abrimos espaço para a construção de um vínculo livre, maduro e equilibrado.



Comentários