top of page
Buscar
A Ilusão de Mudar o Outro: Por que a falta de individuação transforma casamentos em projetos de reforma?

A Ilusão de Mudar o Outro: Por que a falta de individuação transforma casamentos em projetos de reforma?

há 4 dias
3 min de leitura

Quando um casal entra em crise, a queixa mais comum quase sempre vem disfarçada de problemas práticos: a falta de iniciativa nas finanças, a sobrecarga doméstica, o silêncio diante dos conflitos ou a ausência de romantismo. No entanto, por trás da lista infindável de cobranças, existe uma dinâmica silenciosa que destrói casamentos muito antes do divórcio: a tentativa obstinada de moldar o parceiro para que ele caiba nas nossas necessidades de segurança emocional.

Em O Complexo de Cinderela, Colette Dowling resgata um conceito estruturante da psicologia: o processo de separação-individuação. Trata-se da capacidade de qualquer pessoa tolerar a experiência de ser básica e fundamentalmente só — alguém que caminha sobre os próprios pés, desenvolve valores próprios e sustenta uma visão singular da vida. Segundo a autora, é justamente o déficit desse processo que dinamita grande parte das relações afetivas.

Sem individuação, o casamento não é um encontro entre dois adultos inteiros. É uma simbiose defensiva.

O Parceiro como "Projeto", Nunca como Sujeito

Quando um dos parceiros não consolidou seu próprio eixo existencial, a convivência com a alteridade torna-se insuportável. Se o outro pensa diferente, tem ritmos próprios ou limites que frustram expectativas, isso não é vivido como uma diferença saudável, mas como uma ameaça de abandono ou desamparo.

Para aplacar essa angústia, instala-se a cruzada pedagógica:

A pessoa passa a monitorar, orientar, cobrar e "ensinar" o parceiro a agir como ela acha certo.

O parceiro deixa de ser um companheiro de jornada e vira um rascunho em reforma permanente.

A intimidade horizontal é substituída por uma hierarquia silenciosa e arrogante: "Eu sei como devemos viver; você é quem precisa evoluir".

A Cortina de Fumaça Contra o Próprio Vazio

A clínica nos ensina que gastar energia tentando mudar o outro é uma das formas mais eficientes de adiar a própria vida.

Enquanto a mente está ocupada com os defeitos, a inércia ou a imaturidade do cônjuge, a pessoa ganha um álibi perfeito para não olhar para os seus próprios abismos. Ela não precisa responder pelas próprias escolhas de carreira, pela solidão que carrega no peito, pelas feridas da família de origem ou pela falta de propósito pessoal. A queixa crônica contra o parceiro atua como um anestésico: enquanto houver alguém para consertar, não sobra silêncio para encarar a si mesma.

A Reação do Outro: A Sabotagem Passiva

Nenhum adulto tolera viver sob tutela sem reagir. E quando a cobrança é constante, a resposta raramente é o diálogo maduro; é a resistência passiva.

Quanto mais um cobra presença e atitude, mais o outro se atrasa, se esquiva nas telas ou se refugia no trabalho. A passividade do parceiro, longe de ser apenas descaso, torna-se a única maneira inconsciente que ele encontra de demarcar território e gritar: "Eu não sou a sua extensão". Instala-se um ciclo desgastante: de um lado, a pessoa exausta e ressentida por carregar tudo nas costas; do outro, o parceiro infantilizado e acuado.

O Amor Adulto Começa na Desistência do Controle

A verdadeira maturidade relacional nasce de uma perda de ilusão dolorosa, porém libertadora: o outro não tem a obrigação de se transformar em quem nós precisamos que ele seja para termos paz.

A separação-individuação exige recolher as projeções, devolver a vida do parceiro a ele e sustentar a pergunta mais corajosa da vida a dois:

"Com quem essa pessoa de fato é hoje — com os limites, defeitos e ritmos que ela escolhe ter —, eu escolho caminhar lado a lado, ou insisto em ficar apenas para não ter que bancar a minha própria solidão?"

O amor maduro não funde duas metades; ele celebra o encontro de dois seres inteiros que sabem sustentar o próprio peso.



 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

​

bottom of page